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(Des)conhecimento e (des)considerações

sobre os povos e territórios indígenas de Mato Grosso

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Castanha certificada indígena atrai empresas

Pácto das Águas - A qualidade da castanha do Brasil que está sendo produzida por povos indígenas no Sudeste de Rondônia e Noroeste de Mato Grosso está atraindo o interesse de empresas em comprar as amêndoas. Na última semana a Associação do Povo Indígena Zoró realizou a comercialização de 50 toneladas de castanha a R$ 4,00 o quilo para a empresa Amazon Brazil Nuts, do Pará.

Os Zoró são um dos povos indígenas apoiados pelo projeto Pacto das Águas, patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. “Eles têm uma castanha diferenciada porque receberam orientações de boas práticas de manejo e equipamentos necessários para garantir uma atividade florestal sustentável”, explica Plácido Costa, coordenador do projeto. Além dos Zoró, aldeias dos povos Gavião, Arara, Cinta-Larga e Rikbaktsa, além da Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, em Mato Grosso, também participam do projeto.

Os grupos recebem instruções sobre as melhores formas de se coletar a castanha na floresta, como limpá-las e acondicioná-las para evitar o risco de contaminação. Mesas de secagem e barracões são instaladas em locais estratégicos das aldeias ou das colocações, para facilitar o armazenamento. Na associação indígena e na reserva extrativista também foram instalados secadores rotativos, que aumenta ainda mais a qualidade.

Costa explica que o trabalho desenvolvido na região pelo Pacto das Águas está cada vez mais consolidado e se tornando referência de produto de qualidade com compromisso socioambiental e mercado justo. “Além disso, as castanhas são certificadas pela Ecocert, o que garante padrões internacionais de cuidados com o meio ambiente e atesta que as amêndoas são orgânicas”, ressalta.

"O trabalho desenvolvido pelo projeto Pacto das Águas com os povos indígenas despertou a nossa atenção e percebemos que um produto com essa qualidade não é comum de se ver no Brasil e que vale a pena pagar um valor mais alto", aponta Cléberson Nascimento, representante comercial da Amazon Brasil Nuts. Na prática, apesar de a castanha Zoró ser um pouco mais cara que a media no mercado, o custo de beneficiamento é menor do que as castanhas sem as boas práticas de coleta, seleção, secagem e armazenamento. "O consumidor está cada vez mais interessado em saber a origem daquilo que consome e com certeza este é um diferencial", complementa.

Sobre o projeto

O Pacto das Águas, desenvolvido por uma Oscip de mesmo nome, é um projeto apoia povos indígenas e seringueiros em sua organização social, nos processos de capacitação e na estruturação do sistema de coleta, seleção, armazenamento e comercialização de castanha do Brasil. Além disso, fomenta processos de gestão territorial e geração de renda baseados no uso sustentável da floresta e no respeito às formas de organização social destes povos.

O objetivo é articular uma rede de parceiros e agências financiadoras para a constituição de um programa regional de desenvolvimento sustentável, cabendo ao Pacto das Águas o apoio à gestão social e à assistência técnica para a estruturação do sistema de comercialização de 160 a 300 toneladas anuais de castanha e 25 ton. de borracha, envolvendo diretamente mais de 1.000 pessoas de cinco Terras Indígenas que abrangem em seu conjunto aproximadamente de 1,9 milhões de hectares nos estados de Rondônia e Mato Grosso além da Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, em Mato Grosso.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

De extrativistas a gestores: castanha transforma a vida em comunidades da Amazônia


Pacto das Águas - Para alguns povos e comunidades da Amazônia o extrativismo não é mais uma alternativa de subsistência e sim uma atividade lucrativa que age também como uma estratégia política de gestão ambiental e territorial. Povos indígenas, extrativistas e agricultores familiares do noroeste de Mato Grosso e sudeste de Rondônia produzem cerca de 500 toneladas de castanha-do-Brasil por safra, comercializadas, em média, a três reais o quilo. Hoje em dia a qualidade do produto é tão boa que já há compradores interessados em comercializar as amêndoas na Europa.


“Depois de anos investindo em infraestrutura e boas práticas, os povos da floresta com quem trabalhamos atingiram um alto padrão de qualidade na castanha-do-Brasil e já são referência na Amazônia”, explica Plácido Costa, coordenador do projeto Pacto das Águas, patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Ambiental e desenvolvido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Aripuanã.

“Estamos consolidando uma rede de parceiros institucionais, governamentais e até empresariais de onde surgiu a demanda de novos mercados para a castanha”, complementa. O projeto realiza ações de suporte à organização social de comunidades para o manejo e a comercialização de produtos florestais. São parceiros locais os povos indígenas Zoró e Rikbaktsa, além dos seringueiros da Reserva Extrativista Guariba - Roosevelt.

Para Costa, o investimento em infraestrutura e boas práticas permitiu que os parceiros passassem a produzir uma castanha de melhor qualidade, agregando valor ao produto. Com a ajuda de assessorias técnicas, esses povos conseguiram acessar novos mercados, garantindo que um preço justo pudesse ser pago aos extrativistas. Para se ter uma ideia, há dez anos, o preço pago pelos atravessadores oscilava entre R$ 0,50 e R$ 1,00. “Hoje em dia, com uma castanha de boa qualidade, o mercado para comercializar o produto não é um problema e o preço pago fica em torno de R$ 3,00 o quilo”, garante.

Sócrates Zoró, que faz parte do conselho da Associação do Povo Indígena Zoró (APIZ) afirma que o extrativismo foi uma boa alternativa para a comunidade, que por alguns anos tiveram uma experiência negativa com madeireiras. “A castanha é boa para a comunidade e não atrapalha que nem a madeira”, afirma a liderança que envolveu toda a família no recolhimento e seleção dos ouriços. “A gente trabalha junto, mas cada um fica com sua parte da produção”, completa. 

Sócrates, em apenas um mês, já no final da safra deste ano, coletou 1.670 quilos de castanha que foram vendidos a R$ 2,50 o quilo. Sem abandonar suas roças, ele e muitos outros indígenas consorciam seus trabalhos agrícolas com a coleta da castanha no período das chuvas e a extração da seringa no período da seca. A seringa é uma segunda alternativa estimulada pelo Pacto das Águas que vem gerando bons rendimentos.

Esse apoio consolidado pelo Pacto das Águas vem despertando o interesse de outros povos indígenas, como os Arara, Gavião e Cinta-Larga. De acordo com Josias Gavião, seu povo, que divide a mesma terra indígena com o povo Arara, está em busca de alternativas eficientes de sustentabilidade, como a castanha e a seringa. 

“Conhecemos o projeto por meio dos índios Zoró, gostamos da proposta de trabalho e vimos uma potencial parceria”, explica. Para não dar um passo maior que a perna, Josias se reuniu com membros da aldeia e fez uma proposta: coletarem o que conseguissem de ouriços para avaliarem o interesse dos indígenas. Em menos de um mês e praticamente sem estrutura conseguiram coletar cerca de 20 toneladas de castanhas.

“Nós mostramos que podemos fazer o extrativismo, mas também temos ciência de que temos que ter os pés no chão e darmos um passo de cada vez”, completa Josias. “Com assistência técnica e um pouco de infraestrutura temos certeza que estaremos dando os passos corretos na sustentabilidade”, finaliza.

Extrativismo pode ser uma ferramenta de gestão ambiental e territorial
A agregação de novos parceiros ao projeto Pacto das Águas é vista com bons olhos pelos executores do projeto. De acordo com o biólogo Plácido Costa, alguns povos indígenas já demonstraram interesse nesse trabalho que além de ser uma alternativa de renda também pode ser uma ferramenta eficiente de gestão ambiental e territorial.

Com o extrativismo como fonte de renda os moradores das comunidades passam a percorrer mais seus territórios e essa ocupação inibe a entrada de terceiros nas terras para atividades ilegais. Além disso, com a floresta sendo produtiva há menos possibilidades de essas áreas serem abertas para outros fins. “A floresta, bem manejada, é uma fonte de renda e garantia de conservação ambiental”, complementa Costa.

Para garantir a inclusão dos novos grupos, foram realizadas em junho duas oficinas de planejamento. Uma em Juína, no noroeste mato-grossense, e outra em Ji-Paraná, no sudeste de Rondônia com representantes dos povos indígenas, de moradores da Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt e de agricultores de duas cooperativas, a Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam) e a Cooperativa de Produtores Rurais Organizados para Ajuda Mútua (Coocaram). Cada grupo definiu suas potencialidades e necessidades de capacitação e infraestrutura e os assessores do projeto Pacto das Águas estão estudando como atender essa nova demanda e buscando novas parcerias.

“O grande desafio ao trabalhar com essa diversidade de atores é considerar as diferenças culturais na estratégia de desenvolvimento do projeto”, explica Costa, exemplificando que agricultores e povos indígenas têm visões de mundo diferente e que mesmo entre um povo indígena e outro há aspectos culturais que precisam ser considerados.

“Nosso esforço agora é centrarmos em processos de formação e empoderamento das associações para gestão de negócios para que os povos indígenas, agricultores e comunidades tradicionais deixem de serem considerados como beneficiários e para serem realmente parceiros nas ações”, completa.